quinta-feira, 18 de março de 2010

COM LIÇENCA POÉTICA” DE ADÉLIA PRADO, UM INTERTEXTO COM O “POEMA DE SETE FACES”, DRUMMOND, EM UMA PERSPECTIVA ESTÉTICA E SOCIOLÓGICA

Joyce Kelly Silva de Souza

Os primeiros poemas de Adélia Prado foram publicados em Bagagem, entre eles, temos o poema “Com licença poética”, onde a autora busca constituir um diálogo explícito com o poema de Carlos Drummond de Andrade, intitulado “Poema de sete faces”.

Adélia Prado já nos primeiro versos do seu poema deixa claro aos leitores o seu intento de parodiar o poema de Drummond, com os seguintes versos: Quando nasci um anjo torto/Disse: Vai Carlos! Ser gauche na vida. Esse trecho também nos convida refletir a respeito do gênero comungado por ambos poemas, oferecendo aos leitores o gênero autobiográfico. Visto que “a autobiografia é a experiência textual de alguém que quer contar sua vida para dizer quem é” (BELA JOSEF, UFRJ, 1998), buscando os relatos na memória constituída pelas experiências do dia a vida. Dessa forma o autor-personagem olha inretrospectivamente para sua vida, passando-a limpo.

Nos poemas em questão é possível observamos coexistência da vertente estética e sociológica trabalhada pela critica literária. Deste modo precisamos ter em mente as diferenciações significativas vivente entre as duas correntes: a vertente estética bem como o nome sugere se pautará no fazer literário, ou seja, o modo a qual o autor trabalha com a linguagem, a fim de atribuir ao texto, forma, imagem, poeticidade, sonoridade etc

No entanto o diferenciando da corrente anteriormente mencionada, temos a vertente sociológica na qual se preocupará em trabalhar os aspectos social, cultural, econômico, histórico e político em que a obra foi inserida ao ser produzida. Mas, mesmo perante essas diferenciações é importante ressaltarmos que como articula Aurora Cardoso de Quadro (mestre da UNIMONTES):
”considerar a arte pela arte é ignorar o social. Também o fator social não deve ser considerado em primazia na análise de uma obra, uma vez que esta. enquanto arte literária deve ser vista como tal, evidenciando seu valor estético, literário Mas ainda que seja arte, um produto literário é também um produto social”

Esta inter- relação só é admissível pelo fato do autor e obra não se encontrarem separado, mas inserido em sociedade.

Voltando a obra por nós analisada é possível observarmos que de maneira estética e sociológica a poetisa após ter solicitado licença poética ao Drummond, começa reescrever os versos anteriormente mencionados, conferindo a eles novos significados e contextos. Uma vez que “o poema é uma obra sempre inacabada, sempre disposta a ser completada e vivida por um leitor novo”. (PAZ, 1996.p.57).

A reescrita produzida pela poetisa é pautada como já citado na paródia, contudo é válido destacarmos a figura de linguagem antítese presente no poema.,logo é expresso a utilização de recursos estético com a finalidade de expor aspecto social que vem ser expressar a contradição
existente no universo feminino e bem como suas diferenças diante do universo masculino da poesia. Dessa forma, no início do poema a poeta através do seu material de trabalho a linguagem, ou seja, grifo meu:
A palavra que seduz;
A palavra que reluz;
A mesma que produz;
Encanto que reluz.

Consegue estabelecer de forma poética a diferenciação das duas realidades em questão, sendo que nos primeiros versos a autora mostra se ciente da sua sina, ou melhor, a dupla função que a ela foi atribuída desde seu nascimento, ser mulher e ser poeta. ”Cargo muito pesado pra mulher,/esta espécie ainda envergonhada” .(v.5) Pois, sabemos que por muitos tempo a poesia não era aceita como profissão, a república somente aceitava a poesia se ela tivesse função moralizante ou didática. Agora, imaginemos uma mulher em busca de sua a ascensão poética, em uma sociedade que o gênero feminino é visto como “senhora do lar”. Entretanto, o eu lírico vencendo o preconceito diz: “Aceito os obstáculos que me cabem /sem precisar mentir. (v.6). Essa afirmação nos faz refletir sobre a recepção da poetisa para com a poesia. Mas é presente o desejo dela em exercer o seu papel de MULHER, nesse contexto, nota-se a inquietação sobre assuntos como o matrimônio e a maternidade. Logo, temos o eu lírico que demonstra suas indagações pessoais , ao passo que retrata uma situação intrínseca ao se humano. Assim, como proferi Paz:
“O poema é histórico, pois consagra o seu tempo .No entanto já existe antes da história ( contar / narrar ) na sua fundação coletiva ou individual , que posteriormente será narrada por meio do ‘aedo’ (memória) .O poema também transcende o seu tempo , uma vez que percebemos que o homem e suas atitudes são as mesmas , temas extremamente universais.”(PAZ,1996).

E a parti dessas narrações conseguimos “entender o que somos e aonde chegamos” (CALVINO, 1993).
Nos últimos versos Prado constrói uma antítese implícita “Vai ser coxo na vida é maldição pra homem/Mulher e desdobrável. Eu sou” (v.17-18), nestes versos é nítida a maneira como as mulheres reagem em exposição a problemas, chegando a conclusão que elas são mais flexivas, em contra partida, observamos a impotência dos homens em relação às adversidades da vida.

Discorrendo sobre o “Poema de sete faces”, de Drummond, compreendemos uma realidade social diferente do que o eu lírico vivencia, comparando-o com o pradiniano, sendo que aquele não sofre os preconceitos que este sofrera. A produção poética no poema do Drummond apresenta-se mais aceita, visto que é um ser masculino, portanto não observamos preconceito. Além do mais, a representação do eu lírico realiza-se desprovida de “obrigações” sociais, vemos também a imagem do erotismo e da sensualidade. Ainda caracterizando o eu lírico, nota-se um poeta que utiliza situações físicas como inspiração poética, por exemplo, a noite e a embriaguês “mas esse conhaque / botam a gente comovido como diabo” (estrofe .8 /v.3-4 ).

Por essa criação tão machista, Adélia Prado se motivou a reescrever o poema, transformando-a em veiculo de desalienação, vindo dessa forma contra o sistema vigente.

Portanto é nítida a presença da analise sociológica na obra, cito Quadros:
Visto que ela nos permitiu abstrair as representações políticas e sociais que contribuiu pra a reflexão critica sobre esta, inclusive na atuação que exerce sobre o sujeito. Havendo na obra literária reflexos do mundo, esta se torna resultado de vários fatores que envolvem o contexto histórico e as relações sociais das quais ela resulta.

Quanto a analise estética da produção de Adélia Prado, percebemos que o poema “Com licença poética”, apresenta elementos característica do gênero lírico à medida que
no poema lírico uma voz central exprime um estado da alma e o traduz por meio de orações .Trata-se essencialmente da expressão e disposição psíquicas , muitas vezes também de concepções , reflexões psíquicas, enquanto vividas e experimentadas”(ROSENFELD,1983.p.22) .

Vale ressaltarmos que o poema lírico, como o em questão, não apresenta nitidamente o personagem central, o eu lírico é que se manifesta. Além da característica lírica, é marcante no poema a característica do gênero autobiográfica, como já refletido neste.. Os versos que o constitui são assimétrico e livres, característica predominantemente do lirismo moderno, quanto a linguagem, ela é subjetiva da primeira pessoa, a linguagem ainda é um tanto coloquial e simples “Quando nasci um anjo torto/ desses que tocam trombeta”(v.1).

Portanto, eu lírico cumpri a sua sina “ser mulher, mas não exclusivamente, o substantivo que ela carrega é acrescido de outro, poetisa”.

Em conclusão retorno a Quadros:
A analogia entre produção literária, imaginário social e realidade sugere uma metodologia crítica que, a nosso ver, contribui muito para a crítica literária. Mas, a maior consideração com a relação à sua análise tem sido a de que o aspecto estético é o ponto inerente, e por isso diferencial em se tratando de literatura.













REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Ø PRADO, Adélia. Com licença poética. In: MORICONI, Ítalo (Org.). Os cem melhores brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
Ø PAZ, Octavio. Signos em rotação. 3. Ed. São Paulo: Perspectiva, 1996.
Ø As odisséias na odisséias. In: CALVINO, Ítalo. Por que ler os clássicos. 2.Ed. Trad. de Nilson Moulin.São Paulo: Companhia das letras, 1993.
Ø ROSENFELD, Anatol. O Teatro Épico. São Paulo: Perspectiva, 1983.
GOLDSTEIN, Norma. VERSOS, SONS, RITMOS. São Paulo: Ática, 2002
Ø JOSEF, Bella. In: LEENHARDT, Jacques, Pesavento, Sandra, Jatahy(orgs).Discurso Histórico e narrativo literária .Campinas: UNICAMP,1998.
Ø QUADROS, Aurora Cardoso de.Crítica Estética e Crítica Sociológica

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